Nova proposta para tirar a CNH: modernização, redução de custos e impactos em São Paulo
- Paulo Rocha
- 13 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Introdução
O Governo Federal apresentou uma proposta de modernização do processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) com o objetivo de torná-lo mais barato, menos burocrático e mais acessível. A iniciativa — coordenada pelo Ministério dos Transportes e submetida à consulta pública — pretende reformular etapas do processo de formação de condutores, com digitalização de procedimentos e flexibilização de regras que hoje encarecem e alongam o trâmite.

Em São Paulo, onde o Detran-SP é responsável pela execução e fiscalização das etapas de habilitação, a mudança tem potencial para transformar o funcionamento das autoescolas, reduzir custos aos candidatos e exigir novas regulamentações locais.
Principais mudanças propostas
Etapa | Situação atual em São Paulo | O que muda com a proposta |
Curso teórico | 45 h-aula obrigatórias, ministradas por Centros de Formação de Condutores (CFCs) credenciados pelo Detran-SP. | Candidato poderá optar por curso on-line, híbrido ou presencial, inclusive com oferta direta por instituições públicas ou plataformas digitais reconhecidas pelo Governo Federal. |
Aulas práticas | Mínimo de 20 h obrigatórias em veículos da autoescola. | Fim da carga horária mínima. O aluno poderá contratar instrutor autônomo credenciado ou praticar com veículo próprio, desde que atendidos os requisitos técnicos e de segurança. |
Abertura do processo | Feita presencialmente em unidades do Detran-SP ou Poupatempo. | Passará a ser 100% digital, com acompanhamento pelo sistema Renach e integração com o app Carteira Digital de Trânsito (CDT). |
Prova teórica | Aplicada presencialmente nas unidades do Detran-SP. | Poderá ser realizada on-line, de acordo com a estrutura tecnológica de cada estado. |
Prova prática | Aplicada presencialmente com examinador do Detran-SP. | Mantida a obrigatoriedade, mas o processo de agendamento e resultado será integrado digitalmente. |
Emissão da CNH definitiva | Após 1 ano de PPD, o condutor solicita nova via. | A CNH definitiva será emitida automaticamente, caso não haja infrações graves, gravíssimas ou reincidência em médias. |
Custos | Em SP, o processo completo pode ultrapassar R$ 4 mil. | O Ministério dos Transportes estima redução de até 80 % no valor total, graças à digitalização e maior concorrência entre prestadores de serviço. |
Fonte: Ministério dos Transportes – gov.br/transportes
Benefícios esperados para São Paulo
Desburocratização e redução de filas – A digitalização tende a aliviar a demanda nas unidades do Poupatempo e do Detran-SP, que hoje concentram grande volume de atendimentos presenciais.
Acesso mais democrático – Em regiões periféricas ou interioranas, onde há escassez de CFCs, o curso on-line amplia o acesso, sobretudo para jovens e trabalhadores de baixa renda.
Maior segurança digital e rastreabilidade – O uso de biometria e integração com o Renach Nacional reforça o controle de identidade e dificulta fraudes.
Eficiência administrativa – Com processos eletrônicos, o Detran-SP pode reduzir custos operacionais, prazos de emissão e tempo de espera para marcação de provas.
Pontos de atenção e possíveis controvérsias jurídicas
Competência estadual e adaptação normativa.
A implementação depende de resoluções do Contran e, posteriormente, de portarias do Detran-SP. Até que a nova regulamentação estadual seja publicada, permanece válido o procedimento atual. Advogados e candidatos devem acompanhar o Diário Oficial do Estado de São Paulo para verificar o início da vigência local.
Garantia da qualidade da formação.
A eliminação da carga mínima prática pode gerar questionamentos sobre a suficiência do aprendizado — especialmente em caso de acidentes envolvendo novos condutores. Poderá surgir discussão judicial sobre eventual responsabilidade civil ou omissão estatal na fiscalização da capacitação.
Proteção de dados biométricos.
O uso de dados biométricos e digitais deve obedecer integralmente à Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/18). O Detran-SP, como controlador desses dados, precisa adotar medidas de segurança e transparência, sob pena de responsabilização administrativa e judicial.
Transição entre regimes.
Candidatos que já estão no meio do processo precisarão saber quais regras se aplicarão — as antigas ou as novas. Essa indefinição pode gerar pedidos de tutela antecipada ou mandados de segurança, sobretudo se houver prejuízo em custos ou prazos.
Fiscalização e responsabilidade dos instrutores autônomos.
A autorização para atuação de instrutores independentes exigirá registro e controle rígido pelo Detran-SP. Qualquer irregularidade poderá resultar em sanções administrativas ou penais, o que demanda acompanhamento jurídico preventivo.
Orientações práticas para condutores e profissionais do direito
Acompanhar a regulamentação estadual: o site www.detran.sp.gov.br divulgará prazos e portarias específicas assim que a proposta for aprovada nacionalmente.
Consultar o andamento da CNH digitalmente: o aplicativo CDT e o portal Poupatempo permitem verificar resultados de exames e agendar etapas.
Prevenir conflitos e assegurar direitos: advogados especializados podem atuar em situações de indeferimento, reprovação injusta, cobrança indevida ou violação de dados pessoais.
Assessoria a CFCs e instrutores: a mudança impacta contratos, credenciamentos e modelos de negócio das autoescolas paulistas — demandando revisão jurídica e adequação à nova realidade.
Conclusão
A modernização do processo de habilitação proposta pelo Governo Federal representa um avanço importante na busca por acessibilidade, eficiência e segurança no trânsito. Em São Paulo, a adoção das novas regras exigirá harmonização entre o Contran e o Detran-SP, além de atenção aos aspectos jurídicos de transição e proteção de dados.
Para o cidadão, trata-se de uma oportunidade de obter a CNH com menos custos e mais praticidade. Para os profissionais do direito, abre-se um campo de atuação voltado à orientação preventiva, compliance de dados e contencioso administrativo de trânsito — áreas que tendem a crescer com a digitalização dos serviços públicos.
✍️ Por
Paulo Henrique Santos Rocha
Advogado – OAB/SP 432.807
Especialista em Direito Processual Civil e em Direito e Processo do Trabalho
Site: www.advpaulorocha.com



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